Feminismo

Bela, recatada e do lar: O que isso tem a ver com você?

abril 22, 2016

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A segunda começou virada do avesso com a matéria da revista Veja sobre a “quase primeira-dama”, suas características “bela, recatada e lar” e como Michel Temer era um “homem de sorte”. Se você acompanhou os textões do Face, os memes, as matérias sobre e toda a repercussão que isso teve, mas ainda acha que isso é mimimi de feminista, de mulher recalcada, infeliz e uma perseguição às mulheres que escolheram ser do lar, a própria Marcela Temer (que coitada, ficou no meio do fogo cruzado) ou que isso não tem nada a ver com você. Senta aí e vamos conversar um pouquinho!

Vamos começar com um termo que você pode não conhece muito, mas não tem problema. Aprenderemos juntos! Você sabe o que é marginalização social? O significado de marginalização não é só para o bandido que rouba a padaria ou o ladrão que invade a sua casa. São marginais todas as pessoas, grupos sociais ou ideológicas que são obrigadas a se “afastar do centro”. São aqueles que não se encaixam no que é definido como padrão ou tradicional – tipo a nossa família tradicional brasileira – e vivem a margem desta centralidade. Afastados, isolados e separados do resto da sociedade.

Foi isso que Nazismo fez quando levou todos os judeus para “comunidades judaicas”, com o ateísmo e cultos protestantes, em séculos passados, é isso que acontece com a turma do fundão em uma sala de aula, na divisão de departamentos de uma empresa e que continua acontecendo na grande maioria das cidades, principalmente naquelas que já nasceram completamente planejadas, como a minha.

Tá, mais o que isso tem a ver com o “bela, recatada e do lar”? Vamos lá! Por algum motivo que ainda desconheço e espero que algum dia alguém possa me ajudar a entender, o ser humano tem uma grande dificuldade em entender as singularidades. Nossa inteligência só é capaz de entender um conceito geral e não suas particularidades. Cabelo cacheado é aquele da propaganda de shampoo e não o da Maria, ser bonita é um estereotipo pronto que todos devem seguir e família ideal é composta por pai, mãe, filhos e um animalzinho de estimação para deixar a foto mais simpática.

Tudo que foge deste geral causa estranheza e deve ser jogada à margem do centro. Porque um bom centro é limpo, tradicional e uniforme. Esconder e ignorar é muito mais simples que entender. E como eu disse anteriormente, nossa inteligência foi programada para pensar de “forma geral” e não precisa de senso crítico para pensar assim.

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Eu não vou muito longe em nossa história política e não pretendo levantar nenhuma discussão sobre partido, então se contenham! Vamos começar com a nossa presidente Dilma Rousseff.

Dilma foi a primeira presidente do Brasil. Quando ela foi eleita, lembro-me muito bem de todos os jornais, programas de TV, rádio e veículos impressos dedicando grande parte do tempo a polêmica: é presidente ou presidenta? Chamavam professores, consultores, antropólogos e qualquer outra pessoa que pudesse ter uma resposta cabível para esta situação. Mas por que isso aconteceu? Porque ela “alterou o centro”!

Na história do Brasil só havia presidentes, então nunca ninguém precisou pensar nisso. Aí chega uma mulher, assume a cadeira e agora? Vamos precisar reestruturar o centro de novo! A mudança não foi maior porque ela facilitou as coisas – para essas pessoas que se sentem responsáveis por coordenar o centro – não tendo um marido. Como ele seria chamado? Primeiro-damo, primeiro-senhor, primeiro-homem? Eu me recordo vagamente de também acompanhar alguma discussão sobre.

Bom, para piorar ainda mais a estabilidade do centro, a mulher que assumiu a presidência da república brasileira lutou na ditadura, tinha um olhar sério, sem os “traços femininos” que o machismo adora e fama de autoritária. Não era a Claire Underwood que estão vendo em House of Cards, ela era diferente.

Não que essa seja a causa do atual caos político e econômico (EU JÁ FALEI QUE NÃO VOU ENTRAR EM DISCUSSÃO POLÍTICA), mas a Dilma sem marido e com uma filha que aparece muito pouco acabou com a ideia de presidente + primeira dama + filhos. Todos sorrindo como uma propaganda de margarina.

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E aí, com todas as possíveis mudanças que podem acontecer devido aos acontecimentos do último domingo. Surge um possível presidente homem com uma primeira-dama que exala todas as características que este centro adora e vê a chance de trazer de volta a estabilidade de sua fórmula tradicional de família. Eles só aproveitaram a oportunidade perfeita!

BELA: Ela é bela como o machismo gosta – Longos cabelos ondulados, delicada, magra e feminina.

RECATADA: Usa roupas claras e até o joelho, fala baixo, tem gestos sutis, não usa decote, transparência e não é vulgar.

DO LAR: Lugar de onde nenhuma mulher deveria ter saído. Afinal, ficar em casa, cuidar do maridão, levar os filhos para escola e ainda continuar sendo bela e recatada será para sempre uma tarefa dela.

O problema não está na Marcela, nas mulheres que escolheram ser do lar, nas mulheres que usam roupas claras até o joelho ou nas que se encaixam neste padrão de beleza. O REAL PROBLEMA, e ele também envolve você, é como a imagem da Marcela foi usada como uma referência de mulher para a função de primeira-dama. O problema está no centro tentando resgatar seus valores tradicionais e jogando as margens sociais as mulheres que trabalham fora, as mulheres que não usam roupas do mesmo estilo, que não levam os filhos para escola e que acreditam que a função de administrar a casa é de todos que moram nela e não da mulher.

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Nós não podemos mais deixar que estas pessoas nos coloquem formas e quem não se encaixe seja jogado as margens e isolados do centro. Ao invés de pensar de forma geral e se adequar, precisamos aprender a ter sensibilidade com a diferença e se aceitar do jeitinho que se é, e não do jeito que o centro quer que você seja. E é por isso que a ideia de “bela, recada e do lar” também envolve você!

Não podemos nos transformar uma pedra de gelo que se adapta exatamente ao tamanho da forminha. Aliás, nós não podemos aceitar estas forminhas! A forma do pai, da mãe, da família, do que é ser mulher ou do que é composta uma família. Não podemos aceitar que exista um pequeno centro e que todos que não se adaptam sejam deixados de lado. Somos pessoas, convivendo diariamente com pessoas e vivendo em um mundo repleto de pessoas. Então porque temos tanta dificuldade em aceita-las como são?

Pessoas! Vamos desenvolver senso crítico! Precisamos perceber quando somos manipulados e se rebelar contra isso. Não falo como feminista, falo como uma profissional de comunicação que conseguiu identificar o oportunismo de um veículo e sua tentativa desesperada de resgatar valores tradicionais. Trazer de volta um cenário perfeito que reinou por tanto tempo no Brasil onde mulher não era presidente e primeira-dama ficava em casa.

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Eu nunca criticaria a Marcela Temer, nunca criticaria nenhuma mulher bela, recatada e do lar ou qualquer outra que seja o oposto disso, pois eu defendo todas as mulheres e seu direito de ser quem ela quiser.

O que eu não aceito é a sociedade escolher um tipo de mulher, um tipo de família, um tipo de beleza ou qualquer tipo de estereotipo para definir o que é ser mulher, o que é ser família, o que é ser bela ou o que é ser qualquer coisa!

Eles continuarão fazendo isso diariamente, porque quem é tradicional não aceita o novo. Quem cria estas “forminhas” tem dificuldade para aceitar o diferente, por isso cabe a você lutar contra isso. E é por este motivo que o movimento #belarecatadaedolar tem mais a ver com você do que imagina.

Todas as mulheres com suas cervejas, todas as heroínas e todas as outras ironias que foram usadas para retratar o que é ser “Bela, recatada e do lar” serviram para mostrar ao mundo que existe sim vários perfis de mulheres e qualquer uma delas pode ser sim primeira-dama, aliás, até presidente, se ela assim quiser!

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