Feminismo

Quando o machismo me protegia

março 28, 2016

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Na semana passada, enquanto escrevia um post sobre “Roteiros para mochilão na América Latina” para um cliente, fui completamente envolvida pela intensa vontade de viajar. Na verdade, eu sinto muita vontade todos os dias, mas este dia foi ainda mais forte. Eram locais diferentes do que estou acostumada e que sempre tive muita vontade de conhecer.

Atacama, Ilha de Páscoa, Machu Picchu…. Lugares que além de te presentear com cenários inacreditáveis ainda desafiam seu corpo e exigem um pouco de preparação física. Comecei a pensar nos meus 30 que estão chegando e como eu queria tentar fazer algo diferente de tudo que já fiz hoje. Seria interessante tirar um período sabático, conhecer lugares diferentes e preparar o meu corpo para algo especial.

Não sou viajante de primeira viagem, já tenho alguma experiência com destinos internacionais e o roteiro que eu estava imaginando não tinha grandes complicações, mas do nada comecei a ter um nó na garganta e uma crise de ansiedade (ruim!) pensando em alguns detalhes da viagem. Quando refleti sobre isso, acabei ficando bem triste.

Explico! Na minha atual situação viajaria sozinha e de uma forma tão repentina – sem conseguir controlar – comecei a pensar nas amigas que foram mortas no Equador, na quantidade de turistas mulheres desaparecidas que já li em portais de notícias e todas as outras tragédias que invadem todos os dias a nossa timeline.

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O engraçado é que há exatos 5 anos eu fiz meu primeiro mochilão pela Europa. Optamos por ficar em quartos mistos sem qualquer problema, eu não tinha medo de ir ao banheiro a noite, não ficava cuidando da minha bebida e não tremia na base cada vez que alguém vinha conversar comigo. Eu curti a viagem e estava mais preocupada com alguém que quisesse roubar minha bolsa do que fazer algo comigo.

E sabe qual foi a conclusão que eu cheguei quando comparava a Jóyce da primeira viagem com a Jóyce de agora? Eu acreditava que o machismo me protegia!

Sempre tive um estilo “meio fofo”, então não me via como alguém que chamava a atenção. Não acreditava que tinha o perfil que enlouquece um homem e quase não usava roupas que “pedem para ser estuprada”, como dizem por aí. Me via fora deste “estereotipo desejo” e me sentia tranquila.

Eu não nasci feminista e ninguém nunca me ensinou nada sobre quando era mais nova. Eu fui entendendo tudo isso ano após ano, me questionando sobre as injustiças que via e sentido na pele a diferença entre homens e mulheres, então já errei bastante. Nunca fui de ficar julgando ninguém pela roupa ou estilo, mas tinha na cabeça que aquele estereótipo, era o tipo perigoso. A ideia machista da mulher fácil e da mulher provocante que não se dá ao respeito me protegia de coisas ruins, já que eu não era assim.

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Hoje eu sei que isso não existe! Entendi que isso é um comportamento covarde que culpar a vítima e que independente do tamanho da minha saia, ninguém tem o direito de tocar em mim. Descobri que este estereótipo não existe e se um homem fizer alguma coisa com você a culpa é sua independente se seu estilo é fofo ou sexy. Você é mulher e por isso eu posso. Simples assim!

Fiquei pensando em tudo isso e entendi minha crise de ansiedade quando comecei a planejar mentalmente minha viagem. Entendi meu profundo incômodo quando me sentei na última fileira da sala de cinema – entre dois homens desconhecidos – e não sabia se tinha mais medo do urso atacando o Leonardo DiCaprio ou do que eles poderiam fazer ali. Porque hoje não consigo mais dormir no ônibus e me preocupo tanto em comprar a passagem com antecedência no “espaço mulher”. O motivo que me deixa tão constrangida quando um homem me elogia porque nunca sei se qualquer sorriso ou obrigada pode ser a abertura que ele precisa para “algo mais”.

É difícil! Quando eu achava que estava protegida por um perfil que não interessa ao machismo eu me preocupava com outras coisas e agora eu preciso me preocupar com as mesmas coisas e mais estas outras que citei a cima. Minha inocência não existe mais. Hoje eu sei o quanto era ridículo eu pensar desta forma, mas como eu disse, não nasci feminista.

Lembro-me do meu pai me questionando – logo depois que eu terminei um longo namoro e comece a sair sozinha – sobre o que aconteceria se um pneu furasse de madrugada e eu estivesse no carro sozinha. Minha resposta sempre foi: “Eu ligo para o seguro! A assistência não está inclusa neste serviço tão caro que a gente paga?”. Feliz era o tempo em que eu acreditava que minha maior preocupação seria ligar para o seguro e não o que poderia acontecer comigo parada em uma rua escura no meio da noite.

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Agora eu sei que quando se trata de violência contra mulher não existe a Maria da saia curta, a Joana que só vai à igreja, a Luísa que é mãe de família ou a Cíntia que não se dá o respeito. Somos vulneráveis porque somos mulheres. O que eu achava que me protegia, na verdade, me separava do resto das mulheres e me colocava em uma posição confortável para acreditar que o que acontecia com elas não tinha nada a ver comigo. Hoje, eu sei que precisamos estar todas juntas ajudando uma as outras porque mulher é mulher e pronto!

Agora olha que ridículo! Sentir medo de viajar ou fazer qualquer coisa que gosta porque um bando de idiota não sabe o que é respeito e limite. Falhamos. Eu só consigo concluir que nós falhamos!

Deixo algumas perguntas para você refletir:

O que você pensa quando o taxista muda a rota com você sozinha no taxi?

Qual sentimento você tem quando alguém parece estar seguindo você?

Quando se trata de violência, qual é a coisa mais terrível que pensa que pode acontecer com você?

Agora faça as mesmas perguntas para um amigo do sexo oposto e tire suas próprias conclusões.

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